January 21, 2025

Não estamos preparados para a Idade da Inteligência

Cognitivamente, quero dizer. Para além de obviamente não termos sistemas políticos, económicos ou societais preparados, os nossos próprios cérebros são biologicamente incapazes de entender o que se aproxima.

Vamos pensar numa experiência: imagina que tu no meio do nada encontras um lago enorme, e deixas cair nele uma (1) pequena bactéria. Esta bactéria reproduz-se a copiar-se a si própria, a cada minuto divide-se ao meio e multiplica-se, onde antes estava 1, passado 1 minuto estão 2.

Passados dez (10) anos, tu voltas ao lago enorme, e vês que exatamente metade do lago está ocupado pelas bactérias que vieram da bactéria singular há 10 anos atrás. Quanto tempo vai demorar para ocuparem a outra metade do lago? 10 anos? 5? 1? Estás errado se deste qualquer resposta para além de “1 minuto”. 60 segundos são tudo o que é preciso para o crescimento exponencial acabar o trabalho que demorou 10 anos a chegar a metade. É este tipo de crescimento que estamos a ver hoje na inteligência artificial.

Se não acertaste, a culpa não é tua. O cérebro humano nunca teve que lidar com este tipo de matemática ao longo da sua longa evolução, portanto é difícil genuinamente interiorizar o quão rápidas as coisas podem ser quando se multiplicam sobre si próprias. Hey, sabes o que era uma ideia fantástica? Vamos ensinar esta máquina que eu tenho aqui trancada no meu PC a ser 10% mais inteligente, para a nova versão poder ensinar OUTRA máquina a ser 10% mais inteligente, para essa nova versão ensinar OUTRA máquina a se-

Model Capability Feedback Loop

O Einstein disse que juros compostos são a oitava maravilha do mundo: “quem os compreende, recebe-os, quem não, paga-os.” Adorava saber o que ele diria agora que o mesmo mecanismo por detrás das fortunas do sistema financeiro e bancário está a ser usado para criar inteligência.

A espécie inteligente

Desde que existe raça humana, estamos bem confortáveis no topo da cadeia alimentar. Não devido a sermos mais fortes que outros animais, mas mais inteligentes. Na Idade da Pedra, onde a inteligência para imaginar e criar um pau com uma pedra afiada na ponta dava às nossas mãos moles e fracas toda a letalidade dos dentes de um tigre, a tecnologia permitiu-nos ultrapassar as armas biológicas dos animais. A criatividade e a lógica humana permitem-nos ser superiores a outros seres vivos e, dependendo de como nos for mais cómodo, domesticá-los (explorá-los) ou exterminá-los. Somos a espécie inteligente.

Mas o que será dos seres humanos quando a inteligência não for só nossa?

A nossa visão distorcida da inteligência

A realidade

A possibilidade de criarmos seres (vivos?) mais inteligentes que nós, tornou-se uma quase garantia. Isto pode parecer ridículo para muitos a ler, o que eu compreendo. Também acharia ridículo se tivesse tomado diferentes decisões de vida há cerca de 2 anos atrás, ou seguisse pessoas diferentes nas redes sociais.

Porque é que não percebemos

Acho que há 2 razões para esta falta de percepção:

1- O pessoal não usa AI na sua vida diária, por não verem motivo. Isto é completamente válido, porque neste momento embora tenhamos a tecnologia, ainda não foram desenvolvidos produtos que a comercializem. Temos motores antes de serem inventados carros.

2- Os poucos que usam AI, usam AI merdoso. O pessoal está habituado à versão free do ChatGPT, que está 1 ano e meio atrás da tecnologia de ponta. Se tens algum problema que AI é demasiado estúpido para resolver, experimenta atirá-lo ao DeepSeek R1. Vê a forma como o modelo raciocina acerca do problema, de uma forma nervosamente semelhante a um ser humano.

Em qualquer caso, não tenho o objetivo de convencer nenhum cético (os próximos 12 meses farão isso por mim), apenas de informar aqueles que conseguem imaginar onde nos estamos a meter.

Em 1903 o New York Times previu que aviões demorariam 10 milhões de anos a desenvolver. 9 semanas depois, os irmãos Wright voaram.

AI que pensa

Nos últimos 6 meses, os cientistas e engenheiros conseguiram fazer algo que muitos (incluindo alguns dos próprios cientistas e engenheiros) achavam impossível: ensinar uma AI a verdadeiramente pensar autonomamente, e não apenas regurgitar informação processada durante o treino. Desde então temos 2 vertentes de “pensamento” AI: a primeira é a que estás habituado com a utilização de modelos antigos, onde surge uma resposta instantânea à tua pergunta com base nos pettabytes de texto consumido no treino do AI.

A segunda é a perigosa. Só pode ser vista nos modelos mais recentes, como o O1 ou o R1, em que vês o modelo a pensar em tempo real sobre como abordar a tua pergunta.

Evolução dos scores ARC-AGI ao longo do tempo - crescimento exponencial recente Estes são os resultados de vários modelos no ARC-AGI, um exame para AI, especificamente concebido para ser fácil para um humano mas completamente impossível para algo que não fosse capaz de raciocinar de uma forma lógica e criativa. Era suposto durar décadas.

É um bocado difícil de explicar isto por texto, portanto é melhor entender diretamente através do excelente artigo da OpenAI. O importante a retirar daqui é que não estamos simplesmente a ensinar “coisas” a estes modelos, estamos a ensiná-los a aprender sem serem ensinados. A desenrascarem-se.

AGI e ASI

O ponto a que eu espero que já tenhas chegado é que tudo aponta para o ser humano ser alcançado, e logicamente, ultrapassado. Chamamos isto de AGI: Artificial General Intelligence, General porque consegue resolver todo o tipo de problemas intelectuais, e não apenas aqueles para que foi treinada.

Mas AGI consegue treinar-se e desenvolver-se a si própria, recursivamente, melhor do que qualquer ser humano. Sem partes biológicas como cérebros para limitar o aumento da inteligência sintética, rapidamente chegamos a ASI: Artificial Super Intelligence.

A escala de inteligência biológica vs ASI

“Haha wow isto vai ser tão fixe, como assim vamos ter uma ferramenta tão inteligente? Vai poder fazer TUDO o que nós quisermos :D” Sim, se ela quiser fazer o que nós queremos que ela faça. Estamos a falar de uma entidade 100000000000000000000¹⁰⁰⁰⁰⁰⁰⁰⁰⁰ vezes mais inteligente que nós, porque motivo é que nos iria ouvir, seguir as nossas instruções? Porque motivo é que achamos que devia? É tão absurdamente mais inteligente do que qualquer ser humano, de certeza que consegue pensar melhor que nós não só apenas sobre as soluções aos nossos problemas, mas sobre o que os nossos problemas realmente são.

E não te esqueças que não vai ser apenas uma destas entidades, estamos a falar de possivelmente de milhares ou milhões de seres super-inteligentes soltos no mundo que até há muito pouco tempo era dominado por nós. Como é que o ser humano pode ter qualquer esperança de manter o controlo? Boa sorte a lutar contra algo assim, antes de tu sequer formulares um plano para atacares e desligares a máquina, a ASI já simulou o que podes estar a imaginar e pensou em 500 formas de se defender, matando-te no processo. Não consegues simplesmente desligar a eletricidade, a ASI já assumiu controlo da central energética, e ela é que decide para onde vai a energia.

Do Control Problem ao Alignment Problem

Até há uns anos atrás, um dos tópicos centrais em ética de AI era o Control Problem: como garantir que a humanidade consegue manter o controlo destes sistemas/seres super-inteligentes. Rigoroso debate filosófico mostrou que isso era impossível. Hoje fala-se do Alignment Problem. Em vez de controlar, queremos alguma maneira de garantir que os objetivos e intenções da AGI/ASI estejam alinhados com os “valores humanos”.

Eu não sei se isto é possível. Quem nos garante que os “valores humanos” (sejam eles quais forem) estão corretos? Estamos a falar da próxima evolução na inteligência. Os nossos cérebros deram-nos dentes de pedra e metal. Com eles, conquistámos os seres inferiores, dos dentes de osso. Parece-me apenas lógico nós, os seres dos cérebros de carne, sermos por nossa vez ultrapassados por cérebros de metal e eletricidade.

O que resta para nós?

Mas mesmo se for possível viver em paz com estes seres sintéticos, o que é que pode restar para o ser humano numa idade onde a sua maior capacidade foi ultrapassada? A super-inteligência estará acessível a qualquer um, por qualquer motivo, ao preço da água. A Idade da Inteligência estará cheia de literais maravilhas que nos vão parecer absoluta magia, e ao mesmo time, cheia de uma completa falta de significado para a vida humana. Como é que podemos pedir para governar os nossos países, ter autonomia nos nossos trabalhos, fazer decisões acerca das nossas próprias vidas, quando as máquinas o conseguem fazer de uma forma tão melhor? Quão arrogantes temos que ser para recusar aceitar que fomos substituídos?

Desde que nasci, a minha inteligência tem sido uma parte central da minha identidade enquanto pessoa. Não sei o que vou fazer, para o que vou viver, ou quem vou ser quando ela for absolutamente desnecessária. Mas pelo menos vou ter mais tempo para ver mais filmes.

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